23 setembro 2010

Relação a dois: da escolha do parceiro ao relacionamento maduro.


[Este artigo trata da interessante percepção dos motivos psíquicos que nos levam a buscar determinado tipo de parceiro(a).]

Há diferentes formas de relacionamentos, algumas mais primitivas ou neuróticas - que levam a vivências de angústias e constantes conflitos - e as mais maduras e desenvolvidas - baseadas na troca e na aceitação.

Interessante refletir sobre os valores e as características que nos levam a escolha de nosso parceiro. Existe uma grande influência dos modelos parentais na escolha e estabelecimento de vínculos conjugais e familiares, sendo este transmitido de uma geração para outra. Repetidamente vemos homens e mulheres procurarem em seus parceiros características semelhantes da mãe e do pai. Assim, inconscientemente, este casal terá suas bases no triângulo edípico. No Édipo, o desejo pelo o impossível inatingível e pelo perfeito, permeia a relação. Para o garoto a mãe, a Grande Mulher, nunca será sua, e para a garota o Pai Perfeito não poderá ser seu.

A procura constante por homens e mulheres inatingíveis ou com as características de perfeição (guardada em nossa memória), torna a procura árdua e contínua. No par existem duas pessoas repletas de subjetividades e heranças familiares. A história familiar herdada das gerações anteriores está presente na formação do psiquismo de cada um. Dependendo de como esta herança é recebida, você pode tornar-se prisioneiro ou herdeiro de grandes valores. Toda a história familiar de cada membro do casal forma a bagagem que cada um traz para a relação, em todos os aspectos positivos e negativos. No casamento mais primitivo, ou neurótico, o par é formado pela questão da fusão, com a recusa das individualidades e pelo desejo que um seja o espelho do outro, com mesmos valores e comportamentos. A autonomia é inconcebível.

O afeto gerado neste tipo de casal é de irritação, ciúmes constantes, violência diante a qualquer tipo de individualidade e hostilidade. Ou existem desacordos constantes ou submissão total de uma das partes que compoe o par. No casamento maduro existem duas diferentes individualidades discriminadas com um projeto em comum: compartilhar e conviver. Não há mais necessidade de fusão para a manutenção do par.

A busca por homens e mulheres inatingíveis, perfeitos (muitas vezes casados), podem ser comuns na adolescência, uma forma de lidar com os conflitos edípicos, mas a persistência, repetição e especialmente a intensificação deste amor não correspondido pode indicar a necessidade de resolução desta fixação. Mulheres que repetem esta busca pelo inatingível tem a tendência a se envolverem em relacionamentos perversos, que lhes causam muitas dores e frustrações. Resolver conflitos e traumas do passado e desatar as amarras que te prendem a estes comportamentos é a forma de construir uma relação saudável a dois.

Na fase de inicio de namoro é natural uma maior fusão e idealização do parceiro. Faz parte da paixão. A escolha do parceiro está cercada por conteúdos inconscientes e projetivos. Aquelas características valorizadas ou desqualificadas no parceiro podem ser suas! O que acontece com aquele homem perfeito que depois se transforma em um grande monstro? Ele mudou? Tua visão mudou? Em ambos os polos, do amor cego ao ódio desmedido, é tudo projeção. Aprender a ver a pessoa que escolhemos em seu todo, com suas individualidades, potencialidades e dificuldades pode ser o ponto certeiro para encontrar o teu par.

Após este momento se faz necessária a passagem para a diferenciação do parceiro. A aceitação das diferenças e idiossincrasias de cada um. Intimidade não é sentir a mesma coisa que o parceiro, mas a capacidade de partilhar do nosso profundo ser com o outro, resguardando o lugar diferente de cada um. A alternância entre momentos de fusão e de diferenciação é que denotam a harmonia de uma relação. A possibilidade de se espelhar e diferenciar do parceiro, a liberdade de ir e vir, de tornar-se um com o parceiro sem não deixar de ser dois, facilita o amadurecimento da relação e de cada um do casal. Relações estabelecidas na fusão geram estagnação e paralização do crescimento psíquico do casal.

Sem relacionamento não há desenvolvimento. A entrega na relação a dois pode fazer emergir conflitos internos e escondidos que há tempos estavam recalcados. A busca por olhar primeiro para si, para tuas próprias dificuldades e para teu próprio valor interno é o primeiro passo para buscar uma relação estável, baseado no amor e aceitação. Na Psicoterapia de casal o objetivo principal é a saúde emocional dos membros do casal, as possibilidades de transformação e estabelecimento de um vínculo harmônico. Se teu relacionamento anda difícil, procure ajuda. Dificuldades são comuns nos relacionamentos. São tantas as transformações que o casal passa assim como cada um individualmente; que chega o momento de reavaliar e ponderar, destruir e reconstruir, mergulhar nestes conflitos para emergir mais fortalecido e nutrido.

Um comentário:

Flávia Augusta disse...

Isso é verdade, muitas das vezes queremos que o nosso companheiro mude, mas nós mesmo não permitimos a mudança.
Passei por uma situação que tive que escolher mudança em mim ou perder o meu casamento....
Mas Deus nos dá o direcionamento!!!